Longe das imagens idealizadas da maternidade, a psiquiatra chama atenção para o esgotamento físico e emocional vivido por muitas mulheres após o nascimento de um filho
A gestação e o nascimento de um filho costumam ser retratados como um dos momentos mais felizes da vida. No entanto, para muitas mulheres, esse período também marca o início de uma fase intensa, exigente e, em muitos casos, solitária.
Entre noites mal dormidas, mudanças físicas e uma nova rotina que se impõe sem pausa, surge um tipo de cansaço que vai além do esperado. Um esgotamento físico e mental que não se resolve apenas com descanso e que, muitas vezes, passa despercebido.

Segundo a psiquiatra Dra. Maria Fernanda Caliani, é preciso ampliar o olhar sobre esse período. “A exaustão no pós parto não está ligada apenas à depressão. Existe uma sobrecarga real, emocional, física e social, que muitas vezes é ignorada”, explica.
A pressão silenciosa de dar conta de tudo
Cuidar do bebê, da casa, da rotina, do relacionamento, do próprio corpo e, para muitas mulheres, ainda lidar com o retorno ao trabalho. A mulher, que acabou de atravessar uma transformação profunda, se vê diante de uma expectativa silenciosa, dar conta de tudo e ainda fazer isso com leveza.
“Existe uma idealização muito forte da maternidade. A mulher sente que precisa ser grata o tempo todo, feliz o tempo todo e isso gera culpa quando a realidade não corresponde a essa expectativa”, afirma.
Família opinando, comparações e redes sociais que retratam uma maternidade perfeita contribuem para um cenário de cobrança constante.
Quando o corpo e a mente pedem atenção
A privação de sono, as alterações hormonais e a responsabilidade contínua criam um ambiente propício ao esgotamento. Muitas mulheres não percebem que estão exaustas e seguem no automático até que o corpo começa a dar sinais.
Irritabilidade, choro frequente, sensação de incapacidade, cansaço extremo, dificuldade de concentração e distanciamento emocional são alguns dos sinais que merecem atenção.
Não é sobre ser forte o tempo todo
A ideia de que a maternidade exige força constante ainda está presente, mas precisa ser revista. Pedir ajuda não é fraqueza, é cuidado.
“A mulher não precisa ser uma super heroína. Esse ideal de dar conta de tudo é uma das principais causas de sofrimento no pós parto”, reforça a psiquiatra.
Entre a carreira e a maternidade, a culpa invisível
Para muitas mulheres, o retorno ao trabalho intensifica esse cenário. De um lado, as responsabilidades profissionais. Do outro, a culpa por se ausentar, mesmo que temporariamente.
Esse conflito interno pode gerar ansiedade, insegurança e a sensação constante de não estar sendo suficiente em nenhum dos papéis.
Cuidar de quem cuida
Mais do que nunca, é preciso mudar o olhar sobre o pós parto. A mulher não precisa provar nada. Precisa de suporte, acolhimento e espaço para viver esse momento de forma real.
“Cuidar da saúde mental no pós parto é tão importante quanto cuidar do bebê. Quando a mulher está bem, tudo ao redor também se reorganiza”, finaliza.

